Arquivo para Maio, 2008

Não me temas, não caias

Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

O último ato

Atores prontos, platéia atenta, cenário em seu lugar.

Abrem-se as cortinas.

Alguns diálogos, uma mudança de ares, dois personagens conversam, a platéia estranha um deles, parece diferente, teria sido substituído? Seria ele o mesmo personagem de antes? Não importa, o ato continua…

Um dos personagens apenas fala, o outro apenas escuta.

Risos, lagrimas, suspiros.

Abraços, beijos, promessas.

Agora os dois falam, discutem? Não… Conversam, esclarecem as coisas… Um deles finge estar tudo bem, mais qual deles? Ou os dois?

A plateia não entende… O que esta acontecendo? Como chegou a isso? Por que chegou a isso?

Talvez não tenham reparado direito, talvez não tenham mesmo entendido, mas basta olhar atentamente…

Nova mudança de ares… Um dos personagens se retira, o outro fica sozinho no palco, apenas ele e a luz de alguns postes do cenário… Ele olha, procura alguma coisa, algum lugar, ou simplesmente alguem…

O que teria ele perdido? O que faz a plateia pensar que ele não é mais o mesmo?

Aqueles que olham mais atentamente podem perceber o que lhe falta.

Fé? Esperança? Animo? Força? … Amor?

O personagem se volta… Mas não se despede, talvez tenha esperança que o chamem de volta? Mas como pode ter esperança? Se tudo que tinha lhe foi tirado?

Talvez ele não tenha perdido nada, talvez ele saiba onde está, só prefere deixar guardado, pois não precisa mais disso… De que adianta, afinal?

O personagem se retira.

“O Rei está morto!”, alguém grita.

Fecham-se as cortinas.

Mas não se ouvem aplausos.

Lá e Cá

Lá e Cá

Lá e Cá, Aqui e Ali
Cá estive, Lá estarei
Estou aqui, ou ali, ou cá
Querendo estar ali e simplesmente lá

Se lá já estive
Também estive já cá
Pois cá não mais estarei
Quando puder estar lá

E lá onde é? E cá onde já foi?
Aqui e lá, ali e cá
Quero estar ali mas sem sair de cá
Ou não ficar aqui mas poder estar lá

Lá é aqui? Ou aqui é lá?
Lá é ali, e cá é aqui
Mas lá é aqui quando cá é ali
E aqui é ali, quando lá não é cá

Lá e cá, aqui e ali
Quero estar aqui e quero estar ali
Quero vir pra cá e quero ir pra lá
Mas onde é lá e ali, cá e aqui?

No fim, ali e lá, aqui e cá
É só aqui, cá, ali e lá
E eu? Só quero estar ali e lá
Aqui e cá… Junto com você…
… Mas onde você está?